domingo, 11 de dezembro de 2011

Algumas considerações sobre Manoel Tavares Rodrigues-Leal






O gesto surge e ergue-se
Manobra ondulação de ombro braço e mão


Manuel Tavares Rodrigues-Leal
23-1-71

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Algumas considerações.

"A Poesia não tem nome. À sua imagem, o poeta é o homem incógnito. Como poderia ter um nome se a Poesia é o homem à procura dos seu nome?"

Eduardo Lourenço, Tempo e Poesia, Porto, ed. Inova Porto, 1974. (primeira edição)

"Conheces o nome que te deram,
não conheces o nome que tens" (Livro das evidências)

Inscrição de abertura de Todos os Nomes de José Saramago
"Perguntou-se como iria viver a sua vida daqui para diante, se voltaria às suas colecções de gente famosa, durante rápidos segundos apreciou a imagem de si próprio, sentado à mesa ao serão, a recortar notícias e fotografias com uma pilha de jornais e revistas ao lado, a intuir uma celebridade que despontava ou que pelo contrário fenecia, uma vez ou outra, no passado, tivera a visão antecipada do destino de certas pessoas que depois se tornaram importantes, uma vez ou outra tinha sido o primeiro a suspeitar que os louros deste homem ou daquela mulher iam começar a murchar, a encarquilhar-se, a cair em pó, Tudo acaba no lixo, disse o Sr. José, sem perceber naquele momento se estava a pensar nas famas perdidas ou na sua colecção."

Todos os Nomes (José Saramago)

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What did your face look like before your parents were born? 

Zen koan






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Tinha dezoito anos (em 1981) quando conheci pessoalmente Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Manoel - Lisboa 1941). A ideia de construir este blogue ocorreu em 2011. Trinta anos depois. Tomei contacto com a sua poesia no primeiro dia em que o conheci. Éramos vizinhos, se vizinho se pode chamar a uma pessoa que mora a cerca de trinta metros da outra. Já o conhecia de vista há vários anos. Nas possibilidades que os meus dezoito anos me permitiam, pareceu-me logo que havia qualquer coisa de pelo menos interessante na sua obra. Não se trata de um dado ou nome, quase, nem tão-pouco adquirido. E esta ideia entusiasma-me... Geralmente é o que acontece quando falamos ou escrevemos sobre algum autor que, se não está já lançado ou na ribalta, pelo menos está na rampa de lançamento editorial. Não é o que acontece ainda com este poeta. Chamaria àqueles casos tão banalizados - dados e nomes quase ou já adquiridos -, e criando uma nova expressão, mas lembrando aquela extraordinária de Marcel Duchamp (ready-made): ready-made-name. Uma espécie de coisa, objecto, dado ou nome já feito, já terminado. No caso da expressão ready-made-name, o 'nome' toma um lugar prevalecente como garantido e, por isso, já feito, sendo consequentemente, muitas das vezes, o que mais importa. Ou seja, às tantas, o nome acaba por ser o mais importante, impondo-se como imperativo antes de qualquer outra coisa. É que o "dado e adquirido" incorre frequentemente - não quer dizer que seja sempre - num 'antes' ( dado e adquirido) que é paradoxalmente um 'depois' ( dado e adquirido). 'Antes', numa espécie de apriori; 'depois' porque finalizado, terminado, e isso vem no fim, a saber, depois.
Todavia, o que me parece haver é uma insuficiente compreensão destes mecanismos da linguagem que funcionam muito bem, de um certo modo inconscientemente, nas engrenagens dos mercados, das publicidades e, acima de tudo, da visibilidade pela visibilidade que trai de uma certa maneira alguma cegueira de que se não dá por isso. Quer dizer que esta modalidade de trabalhar com o 'nome' se cola enquanto garantia à partida numa lógica de mercado e de publicitação.
Trata-se também, segundo me parece, de uma questão metonímica. Mas não é este o lugar para analisar esta questão.
Enfim, vivemos numa profusão vertiginosa e paradoxalmente futura de ready-made-names! Esta estranha pletora... Evidentemente que não é sempre assim. E mesmo nos casos, nos nomes em que isto acontece, não é obrigatório que sempre assim seja. Mais ou menos nestes termos, no Fedro de Platão, conta-se que os antigos (para a época) davam mais atenção ao que dizia uma pedra ou um carvalho do que a alguém com um nome importante vindo de uma grande cidade. Mas citemos: "Sócrates - Dizem, meu caro amigo, que os primeiros oráculos no templo de Zeus, em Dodona, foram feitos por um carvalho! É evidente que os homens daquele tempo não eram tão sábios como os da nossa geração e, como eram ingénuos, o que um carvalho ou um rochedo dissessem tornava-se muito importante, conquanto lhes parecesse verídico! Mas para ti talvez interesse saber quem disse determinada coisa e de que terra é natural, pois não te basta verificar se essa coisa é verdadeira ou falsa!" (Platão, Fedro, 175 c; tradução: Pinharanda Gomes). Nestes contextos da poesia ponhamos de lado a questão do verdadeiro e do falso. Talvez fosse interessante fazer um dia um estudo sobre a questão petulância do nome. Mas não é este o lugar nem o momento para tal análise.
"Hoje a táctica repressiva baseia-se precisamente no contrário. Nada de proibir. Agora trata-se de fomentar. O próprio excesso, a proliferação e a super-abundância ocupam-se de sufocar ou desvirtuar a voz dos melhores, dos que poderiam ser os autênticos guias da sociedade. Quanta estupidez nos invade em nome da independência e até da nobre pureza da juventude! Quantas banalidades são condecoradas e aplaudidas fazendo-as passar até por rebeldia! Quantas confusões se criam misturando o autêntico criador com tendências que se dizem novas ou que, demagogicamente, se diz serem mais populares, mas que não são senão frivolidades e disparates inventados pelas ordens estabelecidas! (Antoni Tàpies, A Prática da Arte, Trad. Artur Guerra, Lisboa, Cotovia, 2002). Tàpies não cita nenhum nome. Inteligentemente, ele apela para a atenção que deve ser tomada por qualquer um para o que se pode manifestar nestas circunstâncias, seja para quem for (1).
Eduardo Lourenço escreve a propósito de Fernando Pessoa: “ Pessoa conhece uma «glória» verdadeiramente universal. Devemos exultar diante de um fenómeno que toca a idolatria ou deplorá-lo? Muitos reflexos desta glória não nos aproximam nem da obra, nem da figura (em suma, humana) do poeta da Ode à Noite” (Fernando Pessoa, Rei da Nossa Baviera, Lisboa, Gradiva, 2008, p. 46).
Um autor tem oscilações (obras melhores do que outras). Bem como os critérios críticos também variam relativamente a um mesmo livro ou a um mesmo poema, p.ex. Um crítico pode fazer uma análise mais favorável e outro menos. Isto não é novidade.
Além disso, gostaria muito de ver certos críticos e estudiosos de certos autores tidos como malditos e loucos lidarem com eles directamente. A menos que tivessem a capacidade de transfiguração que lhes garantisse uma certa loucura e caos dispondo assim da possibilidade de suportar certos temperamentos que muitas das vezes caracterizam uma certa genialidade a par da obra. Fugiriam a sete pés, sem dúvida nenhuma. Gostariam de falar e escrever sobre eles à distância do espaço e ainda mais do tempo. Evidentemente que alguns são capazes.
Normalmente é muito fácil falar, escrever e pensar sobre o que já foi. Não por acaso Duchamp se retirou para um certo silêncio durante muito tempo.
Eis o desafio a que me propus, prestando aqui algum tributo, tanto quanto possível, à sua obra e à pessoa, uma vez que somos amigos. Sendo um pouco suspeito pelo motivo da amizade, deixo assim alguns registos.
Sou testemunho de uma ínfima parte de um conjunto de cerca de 100 cadernos inéditos de prosa-poética e fundamentalmente de poesia (alguns deles com 100 poemas), só conhecendo uns 3%, se tanto.
Parafraseando o enorme e ímpar poeta que foi Fernando Pessoa, se é bom ou não "sei lá, pouco me importa."
Não se trata aqui de alguém que descobre alguém. Quem sou eu para o ter descoberto se nos separam mais de vinte anos de idade. Andava eu na creche e já ele escrevia poemas. Quem é ele para me descobrir se a ideia de construir este blogue partiu de mim. Para mais, também faço as minhas coisas à parte estas. Mas as coisas não se resumem a somatórios. Aliás, como todos nós em relação uns aos outros, fazemos sempre outras coisas que os outros não fazem, cada um a seu modo na sua dignidade. Neste e noutros casos, as pessoas descobrem-se um pouco mutuamente nos trabalhos que partilham. Quando muito dão-se também a descobrir, dão os outros a descobrir-se, dão-se a descobrir pelos outros. Enfim, dão-se a descobrir uns aos outros através das coisas que todos fazem durante os trabalhos e os dias, para empregar as palavras de Hesíodo - sabendo que há sempre algo mais a fazer e por descobrir.
Não fui eu quem previamente trouxe a sua poesia a um leve aparecimento público. Antes foi a sua poesia que me fez trazê-la a este primeiro limiar. Além disso foi o Manoel quem reatou contacto comigo há uns 5 anos após um interregno de 8, e um dos motivos foi o de ele ir para a frente com a divulgação da sua obra (publicações de edição de autor) contando com o meu apoio na medida das minhas possibilidades.
Enfim, e lembrando uma expressão usada por um antigo meu professor de Filosofia, Costa Freitas (Manuel Barbosa da Costa Freitas - Frade Franciscano que de vez em quando nos lia ou nos pedia para ler o conto de Alphonse Daudet: A Mula do Papa), num tom algumas vezes espirituoso e muito ao seu jeito, e não só: "ninguém substitui ninguém."
Entre outros feed-backs, menciono o de Maria João Seixas relativamente a um livro seu ( "Eis o livro de um grande poeta"), de José Gil ao ler um poema ("é belíssimo") e de Eduardo Lourenço nas suas primeiras impressões ao ler alguns poemas ("tem inegáveis qualidades poéticas").
Este blogue foi inicialmente aberto como espaço provisório com poucos poemas para enviar a algumas pessoas na passagem de ano 2010/2011. Em Janeiro de 2011 decidiu-se construir um blogue permanente, partindo desse dito espaço provisório, onde se foram colocando mais dados acerca da obra do Manoel. 'Manoel', como o próprio diz, é a matriz de todos os seus pseudónimos, sendo que simultaneamente o seu nome próprio é 'Manoel'. Esta ideia ocorreu e decidiu-se fazer este trabalho em conjunto. Este poeta tem alguns livros publicados (quatro, e dois com posfácios escritos por mim) em edição de autor desde 2007. Sairá em de 2012 um outro livro. Publicou alguns poemas no Boletim da SLP (Sociedade da Língua Portuguesa), havendo também no site desta instituição uma recensão sobre um livro seu pela Dra. Elsa Rodrigues dos Santos, bem como um texto da minha autoria sobre os seus três livros.
Manoel desconhece o modo de trabalho com a Net. Mais uma razão para que esta seja o medium principal para este tipo de divulgação, e para que futuramente se possa dizer e pensar o que bem se entenda sobre a sua obra - coisa que não me dirá minimamente respeito - antes que o resto do espólio vá por água abaixo.
Para levar a cabo este projecto foi preciso da minha parte um grande poder de encaixe com a loucura, inclusive a minha, correspondentemente, também, claro. Eis pois o resultado de um ano de registos vídeo e escritos.

Sobre Tàpies veja-se no nosso blogue:

Luís de Barreiros Tavares
12/2011

Alguns nomes que contribuiram de algum modo para a feitura deste blogue. Apoio técnico e outros de João Luis Alves, António Mouzinho, Elsa Rodrigues dos Santos, Raquel Tavares, Paulo Costa Santos, Luís Sal, Alexandra Gomes, Nuno Augusto, Ricardo Santos, Rita Paz, Brahim, José Pinheiro Neves, Sérgio Lopes, Bianca Pratas...
lbtavaresster@gmail.com

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Dois sonetos de Camilo Pessanha lidos por Manoel:


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em paris me exilo.
percurso incólume.
e de paris retorno.
"au petit bar."
onde bebo a bica
e ouço música.
os meus amigos
zé manel e emílio.
somos os primitivos passos.
e a concha de pranto.
bocas de prata.
onde acorda. obrigatório. o exílio.
a apoteose do silêncio.


Inédito "Voz Equívoca"
Setúbal 12/04/75

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Manoel Tavares Rodrigues-Leal usou vários pseudónimos. Assinou livros com os seguintes:

Manoel Ferreyra da Motta Cardôzo - A Duração da Eternidade (2007); A Imperfeição da Felicidade (2007); A Noção da Inocência (2008).
Manoel da Cunha e Mello - Fidelidade de um Fauno (2007-2008)
Manoel de Souza-Valente - Lirica Translúcida (2010)

Entre outros pseudónimos, há nos seus manuscritos um outro: Manoel Pereira de Gouvêa


Um blogue de Manoel Tavares Rodrigues-Leal e Luís de Barreiros Tavares

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segunda-feira, 4 de julho de 2011

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Edição de autor (2007).

Edição do movimento Ágora-Feira-da-Ladra




"(...) primeiro a humanidade compreendia três géneros, e não dois, masculino e feminino, como nos nossos dias; existia ainda além deles um terceiro, consistindo nos outros dois reunidos e cujo nome subsiste ainda hoje, se bem que a coisa desapareceu: nesse tempo o andrógino era um género distinto e que, tanto pela forma como pelo nome, tinha em comum os dois outros, ao mesmo tempo masculino e feminino; hoje, pelo contrário, mais não é do que um nome carregado de opróbrio."

Platon, Le Banquet, 189e, (no Discurso de Aristófanes)
Trad. Léon Robin, Paris, Belles lettres, 1929.*
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Na imagese da palavra**
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"Pela poesia não se obtém aquilo que a vida não dá. Quer dizer, a poesia não tem outra substância (que é também o seu segredo) a não ser a da abstracção do que o poeta viveu ou não, é tudo, é pouco e ultrapassa a vida inteira."

Maria Filomena Molder,
A Imperfeição da Filosofia

"É o outro do devir-outro que define a universalidade. Não o outro realizado, mas a diferença infinita que o elemento abstracto introduz no poema e no sentir poético."
José Gil, Fernando Pessoa ou a Metafísica das Sensações


"Mas o que é que quer dizer efémero?"
Saint-Exupéry, O Principezinho

"esculpe-se a palavra. forma-se o poema."

Motta Cardôzo

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1. A partir do arrancamento de si à infância vem rebater-se algo paradoxalmente vazio-cheio que mais não é do que o decalque espectral daquele arrancamento que, já de si, é cheio-vazio. Esta dupla espectralidade - por exemplo, a 'imagem' do 'efebo' consignada simbolicamente na transfusão de múltiplas idades possíveis com a memória da infância e da adolescência ou com o adulto - e portanto virtualmente múltipla, infinita ou «ilimite» - permite compreender melhor o mundo da obra.

Citando Eduardo Lourenço: «A estrutura tão proustiana deste regresso ao "tempo perdido» não precisa, em princípio, de explicações. Não é necessário ser Pessoa para sentir essa nostalgia lancinante. Ao poeta pertence porém essa idealização fantasmática e localizada da sua experiência infantil, inacessível não apenas como para o comum homens pelo empírico abismo que dela nos separa, mas por uma culpa específica como se fosse ele quem tivesse abandonado a infância e não o contrário como toda a gente" (1).

Que significa , então, ou melhor, simboliza, o 'efebo'? Ele simboliza o hiato, o vazio, numa qualquer idade da infância ou da adolescência que, paradoxalmente, o eu poético, foi e não foi. Assim, o efebo simboliza o vazio no tempo que o «eu» poético sentiu no passado, na infância ou na adolesc~encia, e que vem preencher como uma miragem, como um reflexo temporal, o vazio impossível como futuro inacessível:

" ó nudez interdita. como a de um efebo./ como se fosse a primeira. ou a última vez da vida./ como se fosse o fogo/ da adolescência ainda ardente. e tão/ efémero."

Ou reportando-se simplesmente ao tempo abstracto:

"ainda o dia não eclodiu./ nem puro nem murmuro/ e. já o rumor do passado./ inscreveu. seu revolver. em/ meu corpo [...]."

As idades transfluem umas nas outras. O 'efebo' é o anjo, o 'deus', o andrógino, o eros, o mito a que o eu poético aspira como sendo ele próprio no lapso de não ter sido:

"oh doces praias da adolescência./ cujo esplendor. viril. ainda cintila./ e que eu. vãmente. visitei/ naufrago. agora. [...] da vossa ausência subtil./ que eu. então. ignorei."

2. Ocorre a transmutação da imagética que dá acesso ao plano ficcional desta vez já coabitável com a chamada realidade no sentido vulgar. Isto é, o poeta coabita no mundo e na vida do seu dia-a-dia com o seu mundo poético.

Mas é complexo o jogo entretecido do 'eu' poético, do 'si próprio', do autor, e da alma. Segunfo Filomena Molder, em A Imperfeição da Filosofia:

"O eu poético é uma experiência do si próprio, em que a alma fica a conhecer uma afecção que ela própria não pode guardar, que é um excesso por relação a ela e, ao mesmo tempo, uma irradiação dos seus próprios segredos - deixar cair uma coisa de imediato -, um revelar expressivo da sua própria solidão: o que ela não pôde absorver vai ser transformado em canto" (2).

Regressemos a Motta Cardôzo. Há no processo da leitura a operação de 'des-ler', i.e., uma virtual leitura sempre-já outra (des-lida) do livro lido ('delido') enquanto se lê: "O livro que se lê já delido". O 'deler' ('delido') será, por assim dizer, análogo à complexidade da relação ler-des-ler-re-ler.

3. Mais uma vez o 'ponto final' é um elemento preponderante na escrita cardoziana. O 'ponto final' (ou o 'ponto', como prefere dizer o autor) recorrente nos seus versos tem um efeito sintáxico e semântico surpreendente. Qualquer coisa como um ápice que, no momento, no instante da potência de contracção, se expandiria para um espaço-tempo outro. E o 'ponto final' inscreveria esse efeito. Abrindo, na sua eclosão contráctil, numa estranha sintaxe, para outra semântica e outro código. Enfim, uma nova linguagem.

Outros planos, para outras significâncias. Estes se deslocariam uns através dos outros numa génese de imagens lamelares que se transfluiriam numa permuta dos tempos e das idades, rebentando com a cronologia normal das coisas. Como que uma génese da imagese dos múltiplos sentidos e das múltiplas sensações. Outros planos da fala e da escrita re-temporalizados. Um outro espaço-tempo do sonho. Leiamos de novo Eduardo Lourenço:

"A vida é um sonho de que jamais conseguimos despertar, uma sucessão de «tempos-seres», todos igualmente irreais, misteriosamente ligados entre si, não por um «eu» qualquer de que seriam manifestações, mas pela mera recordação de um lugar de origem, de uma ausência que rodeia aquilo a que chamamos vida e que escorre por entre esses momentos como um fio de nada"(3).

4. Celebração do corpo e da "física das sensações" (como diz Cardôzo). Celebração do corpo impregnada de mito; o da imortalidade: "que nunca morre" (expressão recorrente nestes versos).

Enredo críptico de sensações: "o desejo cresce. escorre pelos flancos do meu corpo. eclode./ e o corpo. estremece." Trama de imagens e impressões quase fervilhantes e rimbaudianas - não obstante a planura, a leveza: " o pólen. poluído dos dias./ que perfazem. a superfície. mansa. das águas."

Com efeito, encontramo-nos por vezes nas 'redes' da linguagem, como algures parece sugerir Nietzsche. E nelas por vezes caímos, recaímos e nos reerguemos.

Redes da linguagem? Redes do corpo? Não se percebe bem de que corpo se trata. se do feminino, se do masculino? Se dos dois simultaneamente? Ou se de nenhum dos dois? Se o do 'eu' poético, se outro qualquer? Se de um corpo abstracto, se de um corpo de carne? De um corpo outro do texto?

Mas, é nessa in-diferença abstracta do corpo que se alude subliminarmente à androginia consumada na in-diferença abstracta do verso.

Assinado: Luís de Barreiros
Alverca 7-11-2007



Notas:
* Inscrição que antecede o texto.
** Texto publicado como posfácio no livro A Imperfeição da Felicidade em edição de autor.
Desenho na capa por Luís de Barreiros Tavares

(1) Lourenço, E., Pessoa Revisitado, Lisboa, Gradiva, 2003, p.123.
(2) Molder, M.F., A Imperfeição da Filosofia, Lisboa, Rel.D'Água, 2003.
(3) Lourenço, E., O Lugar do Anjo, Lisboa, Gradiva, 2004, p.63.

Bibliografia:
Lourenço, E., O Lugar do Anjo, Lisboa, Gradiva, 2004.
Lourenço, E., Pessoa Revisitado, Lisboa, Gradiva, 2003.
Molder, M.F., A Imperfeição da Filosofia, Lisboa, Rel.D'Água, 2003.
Pessoa, F., Poesia 1930-1933, Lisboa, Europa-América.



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quarta-feira, 4 de maio de 2011

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Desenho: retrato de Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1988).
A esferográfica, por Luís de Barreiros Tavares.


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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Alguns dados biográficos e publicações de Manoel Tavares Rodrigues-Leal (1941-2016)




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Alguns episódios e curiosidades sem ordem cronológica


A. Sophia de Mello Breyner Andresen.

Manoel Tavares Rodrigues-Leal era primo direito de Francisco de Sousa Tavares, casado com a grande poeta Sophia de Mello Breyner Andresen.
Um dia, Rodrigues Leal, ainda muito jovem, na clínica de S.Miguel, quando do nascimento de um filho de Maria Ana Burstoff do Espírito Santo Silva Sousa Tavares, primeira mulher de Miguel Gonçalves (irmão de Francisco Sousa Tavares), cruzou-se, não se sabe se pela primeira vez, com Sophia.
Segundo palavras de Manoel Leal: "Sophia parecia pairar, com o seu ar aristocrático. Parece que as musas lhe ensinavam a poesia."
Não identificando de momento o jovem Manoel, Sophia pergunta a um outro familiar: "Quem é?"
"É o filho da tia Tanina."
Sophia: "Ah!"
Manoel Rodrigues-Leal interpela Sophia: "Não gosto dos seus poemas políticos."
Sophia: "São iguais aos outros..."
"A Sophia passeava-se aérea. Não era a loucura. Era o que os ingleses chamam 'lunatic'."

Anos mais tarde, Manoel almoça em casa de Sophia em Lagos no Algarve.







Manoel no café Eira (Anjos) - anos 80 do século passado.
Foto de Luís de Barreiros Tavares.


B. Escrevo o que quero.

"Não fiquei nem em Rimbaud nem em Pessoa. Não sei se a minha poesia traz algo. Mas escrevo o que quero." Manoel Tavares Rodrigues-Leal

C. Maria Velho da Costa e Pedro Tamen.

Um dia, anos 70, em casa da escritora Maria Velho da Costa, após esta ler alguns dos seus poemas, foi-lhe sugerido por ela que contactasse Pedro Tamen para tentar publicação. Foi a casa dele levar-lhe os manuscritos. Dias mais tarde encontraram-se numa livraria. Tamen indicou-lhe a publicação na Moraes Editora, da qual era director, ao que parece, tendo de pagar 11 contos pela edição. Não publicou. "I would prefer not to", como diz o outro (no Bartleby de Melville)?

D. Eduardo Prado coelho.

Conheceu Eduardo Prado Coelho num café da Avenida de Roma, provavelmente no famoso Tic-tac: "tenho uns poemas que gostava que visse". Prado Coelho respondeu-lhe: "Apareça na Faculdade de Letras da parte da manhã e leve-os para eu ler." Não apareceu. "I would prefer not to"?

E. Conheceu e conviveu em cafés da Avenida de Roma com o crítico de arte Rui Mário Gonçalves.

F. Caeiro.

Comprou em Cascais em 1963 uma terceira edição de Alberto Caeiro.

G.

Manoel Vilaverde, pai de Manoel, foi amigo de António Botto, do dandy Santa Rita (poeta), António Ferro, Fernanda de Castro (mulher de António Ferro), Pedro Teutónio Pereira, Almada Negreiros, António Sardinha ("ícone maior do integralismo lusitano" Manoel),  entre outros, com quem travou longas conversas nocturnas no Rossio em Lisboa.
Entrevistou Almada Negreiros.

H.

Numa viagem a Paris nos finais dos anos 60 ou princípios de 70 levou para ler O Banqueiro Anarquista de Pessoa.

I.

Frequentou um grupo do café Monte Carlo em 70 onde conheceu Herberto Helder com quem frequentou festas particulares (as meio-clandestinas party dos anos 60 e princípios de 70) juntamente com outros amigos comuns. "Um deles foi Eduardo Jorge Garcia de Freitas" (Manoel). Uma vez num encontro com o Herberto Helder, falou-lhe da Sophia (Andresen). O Herberto disse-lhe que preferia a primeira fase da poesia da Sophia.


J.

"O que é a poesia para ti?", perguntou um dia o irmão mais velho ao Manoel quando este tinha 27 anos. Manoel: "A poesia é a pesquisa da palavra".

L.

Conhece no princípio dos anos 70 o poeta Gastão Cruz no extinto café Monte Carlo. Gastão Cruz fala da possibilidade da publicação de um livro do Manoel. Encontram-se  também no Centro Nacional de Cultura. Mas o livro não foi avante. Naturalmente porque o Manoel não deu continuidade ao assunto.

M.T.R.-Leal. : Gosto muito do seu livro Escassez.
G.Cruz. : Também gosto.

M.

Teve como professores José Marinho e sua mulher.

N.

Frequentando as faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra chegou ao 5º ano, tendo feito 21 cadeiras, mas não acabou por não concluir a Licenciatura.

O.

Manoel Tavares Rodrigues-Leal é tio de Maria Rodrigues-Leal Moitinho d'Almeida, descendente de Moitinho d'Almeida, dono da firma onde Fernando Pessoa trabalhou e de que quem foi amigo próximo a ponto de lhe ser cedido em horários livres o espaço da mesma para escrever à máquina e corrigir textos. Mais tarde, uma das máquinas onde Pessoa escrevia foi doada pela família Moitinho d'Almeida sendo exposta actualmente na casa Fernando Pessoa.

P.

Há cerca de cinco anos (2007) foi oferecido o primeiro livro do Manoel (A Duração da Eternidade) a Maria João Seixas, por um amigo comum - José Eduardo Cabral Mimoso Serra. Maria João Seixas apreciou muito o livro, chegando a dizer num encontro na Culturgest, junto de Nuno Júdice, que se tratava de um grande poeta. Tentou contactá-lo por telefone enviando-lhe o número por intermédio desse amigo. Manoel preferiu manter-se no seu retiro. Optou por privar-se, de algum modo, de eventuais exposições públicas através de, por exemplo, publicações com mais visibilidade. Mas agora (2/2012), parece estar a mudar de ideias. Tanto assim que tenciona enviar os últimos livros publicados a Maria João Seixas.

Q

"No colégio particular Académico estive no quadro de honra desde o primeiro ano ao sétimo do Liceu como segundo melhor aluno."

R


Conheceu o grande poeta António Ramos Rosa numa consulta de psiquiatria do Hospital de Santa Maria. Ramos Rosa levara um livro do seu amigo Pedro Tamen. Lia-o com muita atenção. O Manoel e o Ramos Rosa trocaram umas impressões sobre aquele poeta.

S

Enviei-lhe um sms a dizer que a frase do Eduardo Lourenço ("a escrita é um risco total") serviu de tema para um debate das "Correntes d'Escritas 2012" e para uma intervenção do Ruben Fonseca.
Resposta: "É um risco que inere a todo o tipo de escrita, até a científica".

T

Os pseudónimos baseiam-se em nomes verídicos de família que o poeta adopta e constrói. Todavia, tal como o autor refere, 'Manoel' é a matriz ou o ortónimo que consta nos pseudónimos.

U

"Eu [Manoel] e o José Manuel dos Santos (José Manuel Boavida dos Santos - actualmente professor de filosofia na Universidade da Beira Interior - UBI), tínhamos um projecto para abrir uma livraria e tabacaria no belíssimo café Londres em 1972." Mas entretanto foi-lhes comunicado pelos patrões do café que o espaço tinha sido vendido ao Banco Espírito Santo. Por esta altura estava lá sempre o João César Monteiro e a Margarida Gil.

V

"Nos 2 últimos anos em que trabalhei na Biblioteca Nacional pedi por escrito à directora de divisão e ao director de serviços uma regalia para sair todos os dias mais cedo, trabalhar e terminar o meu livro que queria publicar. O texto estava cuidadamente escrito. Eles sabiam perfeitamente que eu me estava nas tintas para o ambiente e para o trabalho em si mesmo."

X

"Aos 18-20 anos escrevi os primeiros poemas. Aos 26-27 anos comecei a desmembrar a minha poesia ao mesmo tempo que fazia uma grupo-análise com o Dr. Azevedo e Silva (psiquiatra e grupo-analista). Nessa altura conheci uma rapariga linda, Maria de São Pedro. Estava em ciências físico-químicas.

Y

"O Mário Sério, ilustre desconhecido, que frequentava o café Copacabana, era um apaixonado por Brecht, Stanislavsy, Rimbaud, Verlaine, entre outros. Vestia-se de modo muito particular, com fato negro de veludo. A dada altura desapareceu do mapa."

Z

"Quando saía do colégio militar em Campolide, durante o serviço militar, ia jantar com a minha mãe. Depois voltávamos para casa. Ela fechava as duas portas do quarto à chave e eu por vezes levantava-me da cama, batia com os punhos na porta e gritava: "não sei escrever bem e não sei falar bem!""

A1



Por que é que o autor usa vários pseudónimos? Jogando com vários nomes de origem familiar e, segundo diz, e ao que parece, aristocráticos. Retrabalha-os (p.ex., Ferreira > Ferreyra), indo buscar aqui e ali, combinando-os. Não se trata, segundo ele, de uma certa "construção e opção teatral" como acontece com Fernando Pessoa e os seus heterónimos.
Juntando a isto, Manoel pretende não esquecer esses nomes. Aliás, como já foi dito algures, e é o autor que faz questão de assinalar, o nome "Manoel" está presente em todos os pseudónimos. Manoel chama-lhes por vezes heterónimos. Mas parece optar pela primeira designação: pseudónimos.
"Manoel" é assim, segundo ele e nas suas palavras, "a matriz daqueles pseudónimos", sendo que se inclui também no nome civil: Manoel Tavares Rodrigues-Leal.




B1. Em conversa: quatro cadernos antigos considerados relevantes pelo autor:

Odes domésticas
Apresentação de Paula
Ciclo incompleto sobre a memória de uma mulher
Elogio do Rigor

C1. Em finais de 60 ou princípios de 70 faz uma em Paris com Eduardo Jorge Garcia de Freitas (sociólogo) e Emílio Aquiles de Oliveira (engenheiro). Encontra-se com outro amigo, José Manuel Boavida dos Santos que nessa altura estudava filosofia na Sorbonne.

Fotos:

Com a mãe passeando no Rossio (inícios de 50)
No café "Eira" na Rua do Forno do Tijolo no bairro dos Anjos (finais de 80). Apenas por graça, e tentando honrar o melhor possível tamanha correspondência - espacial e temporal - lembra-se aqui que a actual «Rua do forno do tijolo» foi, segundo consta, o antigo «Caminho do forno do tijolo» onde se situava a sede da Direcção (Luis de Montalvor) da extraordinária revista Orpheu.

C2

Foi amigo do poeta Cristovam Pavia (Lisboa7 de outubro de 1933 - Lisboa, 13 de outubro de 1968). Dedicou-lhe vários poemas.


Outros comentários

1. Dezembro de 2016:

“Espanto... uma singularíssima sílaba oceânica, secreta e com uma pitada de Bartleby e outra de corsário... e aproveite-se e descubra-se o sopro, o balbucio da sua voz no Youtube...Manoel Tavares Rodrigues-Leal”
(António Cabrita)


http://triplov.com/letras/Antonio-Cabrita/index.htm



Publicações:

Na Caliban uma publicação (26/12/2016) com poemas de Manoel Tavares Rodrigues-Leal sobre Rimbaud:

Na Caliban: publicação de um artigo (06/01/2017): Evocação de Sappho (Safo de Lesbos) – Poemas de Manoel Tavares Rodrigues-Leal:


Na Caliban (20/01/2017) - 
Turner — Byron — Wilde — Eliot - Quatro poemas inéditos de Manoel Tavares Rodrigues-Leal:


Na Caliban (24/02/2017) - Evocando Sophia — Seis poemas inéditos de Manoel Tavares Rodrigues-Leal:
 
Na Caliban (31/03/2017) Cesariny — Herberto — Armando da Silva Carvalho — Gastão Cruz - Inéditos — Quatro poemas a quatro poetas (1976) e Ars Poetica II (1977) - por Manoel Tavares Rodrigues-Leal 

Na Caliban (11/07/2017) Quatro poemas inéditos a Pessoa — Artaud — Rimbaud — Por Manoel Tavares Rodrigues-Leal

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Desde 2013 que são publicados poemas na revista Nova Águia (semestral)...


Vão ser publicados 2 poemas no nº de 2017 da revista «A Ideia».